Por Jovanna Baby
O movimento trans no Brasil tem uma trajetória marcada por resistência, conquistas e desafios contínuos. Desde os anos 1970, com o surgimento da Associação Damas da Noite, no Espírito Santo, e a criação da Associação de Travestis e Liberados (ASTRAL), no Rio de Janeiro, em 1992, a luta por direitos e reconhecimento tem se fortalecido. No entanto, ainda há muito a ser feito para alcançar uma sociedade mais justa e representativa para a população trans e travesti.
A Primeira Marcha Trans e a Luta Contra a Violência Policial
Em 1995, aconteceu a primeira marcha trans do Brasil, um marco na luta por direitos. O ato saiu da Candelária, no Rio de Janeiro, e seguiu até a Cinelândia, passando pelo quartel-general da polícia militar. Na época, a principal pauta era a denúncia da violência policial, que vitimava especialmente as travestis na Baixada Fluminense. Essa mobilização demonstrou a força do movimento e inaugurou uma nova fase de visibilidade e resistência.
Conquistas e Distorções no Movimento Trans
Entre os avanços alcançados ao longo dos anos, destacam-se o direito ao nome civil diretamente no cartório e a política de saúde específica para pessoas trans no Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, o movimento trans sofreu um processo de elitização e embranquecimento. Muitas travestis e mulheres trans que vivem da prostituição, historicamente na linha de frente da luta, não encontram representatividade nos espaços de decisão. Além disso, o caráter democrático do movimento, onde todas as travestis decidiam as pautas em conjunto, foi enfraquecido.
O Papel do FONATRANS e o Combate ao Transracismo Ambiental
O Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS) tem sido um espaço essencial na luta contra o transracismo e o racismo ambiental. O Fórum busca garantir o direito à cidade para a população trans negra, promovendo debates e ações que enfrentam as desigualdades estruturais. Os corpos trans negros, que deram início à luta LGBT no Brasil, continuam à margem das políticas públicas e das iniciativas do movimento LGBTQIAPN+.
Desafios Atuais: Mercado de Trabalho e Representatividade
A marginalização da população trans negra se reflete na falta de acesso ao mercado de trabalho e na exclusão dos espaços de poder. O movimento LGBTQIAPN+ ainda é dominado por homens brancos e que muitas instituições não escutam quem realmente sofre perseguições na base. A realidade das travestis brasileiras, das quais 90% vivem da prostituição, raramente é representada nas grandes mídias e nos espaços de decisão. Para que o movimento trans avance de forma significativa, é preciso garantir que todas as pessoas tenham oportunidades e que o poder seja compartilhado de maneira equitativa.
O Futuro da Luta Trans no Brasil
A trajetória do movimento trans no Brasil é marcada por coragem e persistência. As conquistas obtidas são fruto de décadas de mobilização, mas a luta por direitos plenos e dignidade ainda está longe de acabar. O futuro depende da ampliação do acesso a políticas públicas, da inclusão das vozes historicamente silenciadas e do reconhecimento do protagonismo trans negro na construção dessa história.