Gabriela Fonseca
A máxima filosófica de Immanuel Kant, formulada em seu imperativo categórico, nos desafia a refletir profundamente sobre a ética de nossas ações: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal.” Em outras palavras: se todos agissem como eu ajo, que tipo de mundo existiria? Essa pergunta, simples e poderosa, revela o peso ético que cada comportamento individual carrega em relação ao todo social.
No entanto, na vida cotidiana, somos constantemente atravessados por discursos, estruturas simbólicas e normativas que moldam nossas ações de maneira muitas vezes inconsciente. Certos comportamentos sociais são reforçados não apenas por sua repetição prática, mas pelo seu impacto cultural e simbólico — são gestos, falas e condutas que sustentam sistemas inteiros de poder e desigualdade.
Machismo estrutural: um sistema simbólico e comportamental
Um exemplo claro é o machismo estrutural. Ainda hoje, apesar de avanços no debate público sobre igualdade de gênero, vivemos em uma sociedade que reforça ideais utópicos de beleza feminina e reprime a expressão emocional masculina. Dados do Instituto Avon e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2022) mostram que 80% das mulheres sentem-se pressionadas a manter uma aparência “adequada” para serem aceitas profissional e socialmente. Paralelamente, os homens são socializados desde a infância a não chorar, a serem “durões” e a rejeitar tarefas consideradas “femininas”, como o cuidado doméstico e a criação afetiva dos filhos.
Esses papéis de gênero, ensinados e reforçados geração após geração, contribuem para desigualdades que se manifestam em múltiplos níveis: econômico, emocional, simbólico e até mesmo jurídico. Como apontou Pierre Bourdieu, no conceito de violência simbólica, as estruturas sociais de dominação se mantêm justamente por parecerem naturais, invisíveis e inquestionáveis.
Capitalismo e o culto à performance
Outro exemplo está no campo da produtividade. O discurso capitalista contemporâneo frequentemente glamouriza a exaustão: não dormir, não parar para comer, viver sob pressão constante. Isso se reflete no fenômeno da “cultura do burnout”, já reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema de saúde pública. A ideia de que “quem trabalha demais é mais valioso” alimenta um ciclo de sobrecarga que desumaniza o sujeito e o reduz a uma engrenagem produtiva.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, em sua obra A Sociedade do Cansaço (2015), observa que vivemos em um regime de autoexploração, em que o indivíduo internaliza o papel de explorador de si mesmo. Nessa lógica, descansar se torna um fracasso; parar é quase uma forma de culpa.
O “jeitinho brasileiro” e a ética da transgressão cotidiana
O famoso “jeitinho brasileiro” é outro fenômeno cultural que evidencia uma ética distorcida. Ele consiste na prática de contornar normas sociais e regras institucionais em benefício próprio, muitas vezes com certo orgulho nacional. O problema, como apontam sociólogos como Roberto DaMatta, é que essa prática revela uma dificuldade histórica do Brasil em construir uma cidadania baseada na igualdade de direitos e deveres.
Quando a esperteza é mais valorizada que a ética, criamos um ambiente permissivo à corrupção cotidiana — desde furar filas até fraudes maiores. Esse comportamento, muitas vezes considerado “inofensivo”, contribui para a normalização de uma cultura de impunidade e desigualdade.
Repetição, discurso e crítica social
Vivemos hoje em um mundo saturado de informações, discursos e imagens. A repetição acrítica desses conteúdos — por redes sociais, mídias de massa e interações cotidianas — reforça normas sociais sem que percebamos. O filósofo Theodor Adorno, em sua crítica à indústria cultural, já alertava que a repetição massiva de padrões conduz à alienação: os indivíduos passam a reproduzir comportamentos sem consciência de seu impacto coletivo.
Esse imediatismo impulsivo, onde tudo precisa ser instantâneo e visível, dificulta o exercício da reflexão crítica. Reproduzimos padrões — de gênero, consumo, sucesso, corpo, afeto — como reflexo de um grande espelho social, muitas vezes sem questionar de onde eles vêm ou quem se beneficia com eles.


